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A palavra aos técnicos
No programa Prós & Contras do passado dia 14 de Janeiro, dedicado ao tema Novo Aeroporto de Lisboa, passámos ao lado da oportunidade para discutir "Lisboa + 1" ou, agora de forma mais clara, "Portela + Alcochete"
Não obstante a qualidade e méritos da moderadora, o debate resvalou para terrenos da política dos interesses partidários ou empresariais, abaixo dos mínimos toleráveis.
Este extremar de posições impediu o esclarecimento público sobre as dificuldades de manter dois aeroportos na área de Lisboa, ou seja Portela+Alcochete. Sim, porque todas as outras opções (Portela+Alverca, Sintra ou Montijo, ou até, imagine-se!... Portela+Cascais/Tires) são inviáveis do ponto de vista técnico, quer por limitações de comprimento e orientação das pistas quer pelo local de implantação, pois são demasiado próximas entre si para permitir uma eficaz gestão do tráfego aéreo, e demasiado distantes para serem geridas como uma única infra-estrutura aeroportuária. Seria a confusão geral...
Os defensores da manutenção de dois aeroportos (Portela+Alcochete) devem fazer prova da sua viabilidade económica, evitando a utilização deste argumento de forma emocional, demagógica e/ou populista. Lisboa não tem, nem prevê vir a ter num horizonte imaginável, os movimentos de Paris ou Londres, e as decisões de construção de dois aeroportos para servir a mesma cidade, nos casos do Canadá (Dorval e Mirabelle, em Montreal) e em Itália (Linate e Malpensa, em Milão – cidade que, só com a ponte aérea com Roma, movimenta mais de cinco milhões de passageiros/ano) criaram enormes elefantes brancos, que ainda hoje apresentam deficits estruturais.
Um pequeno "city airport " talvez, se devidamente estudado...
A transferência faseada da operação da Portela para Alcochete também não se nos afigura plausível. A duplicação dos meios indispensáveis para a operação de transporte aéreo, com todas as outras infra-estruturas obrigatórias e indispensáveis à operação de um aeroporto, conforme definido nos Regulamentos da Organização Internacional da Aviação Civil, inviabiliza a rentabilidade desta solução.
Outras questões se colocariam: Qual o tráfego que iria para o novo aeroporto? O excedentário (imaginando que a British Airways permitiria à TAP voar da Portela para Heathrow, aceitando ela própria voar de Heathrow para Alcochete)? As low-cost, ficando as restantes na Portela? Que taxas teriam as low-cost que suportar nesse caso? Ou, por absurdo e inédito, colocar as low-cost no centro de Lisboa e remeter a operação regular para Alcochete? Ou destruir o hub da TAP e da STAR Alliance onde se insere, mantendo o médio curso na Portela e o longo curso a partir de Alcochete? (Imagine-se o leitor a embarcar com a família e bagagens em Frankfurt, Faro ou Funchal, num voo com destino ao Rio de Janeiro, a ter de desembarcar na Portela e deslocar-se, com a família e bagagens para Alcochete, para apanhar o voo para o Rio!!)
Lembramos que os novos aeroportos de Munich, Kuala Lumpur, Hong Kong, entre outros, abriram no dia seguinte ao do encerramento da infra-estrutura que foram substituir.
A credibilidade de alguns políticos e de outros altos responsáveis melhorará consideravelmente no dia em que tenham respostas para estas questões antes de defenderem publicamente as suas opções.
Dêem a palavra aos técnicos!
(excerto de artigo publicado no Expresso de 26 de Janeiro de 2008)
Cmdt. Filipe Durval Ribeiro
Presidente da APPLA – Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea
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